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Miguel Torga em Leiria

Nota biográfica de Miguel Torga
O poeta Miguel Torga, pseudónimo literário de Adolfo Correia da Rocha nasceu em 1907, em São Martinho de Anta, distrito de Vila Real, e faleceu em Coimbra em 1995.
Oriundo de uma família de poucos recursos económicos, foi aos treze anos para o Brasil. Após cinco anos, regressou a Portugal e prosseguiu os estudos em Coimbra, cidade onde tirou o curso de Medicina, na especialidade de Otorrinolaringologia.Começou por dar consultas de Clínica Geral na sua aldeia e em Vila Nova, tendo em ambos os locais permanecido pouco tempo. Entre 1939 e 1941 exerceu a sua actividade em Leiria, período importante acerca do qual, num discurso proferido no Orfeão de Leiria a 20 de Novembro de 1980, disse o seguinte: “Dos anos que passei em Leiria, a todos os títulos singulares e decisivos no meu destino, guardo duas riquezas de que sou avaro: o encantamento da sua paisagem – uma das mais harmoniosas de quanto conheço – e a lição de algumas humanidades exemplares”.
Em 1934, usou pela primeira vez o pseudónimo de Miguel Torga ao publicar A Terceira Voz. Soube-se então que optou pelo nome “Miguel” em homenagem a três “Miguéis” da sua particular devoção: Miguel Ângelo, Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno. Quanto ao nome “Torga” é a urze campestre, planta simples com que o poeta se identificava. 
O período político que se vivia coarctava com frequência a liberdade de pensamento e de expressão; por isso e devido ao facto de na obra A Criação do Mundo – o Quarto Dia, ter mencionado Franco e Mussolini em termos pouco elogiosos, foi preso em Leiria (1939).
O ano de 1940 ficou assinalado não só por se ter casado com Andrée Crabbé, jovem belga que conheceu em Coimbra, em casa de Vitorino Nemésio, como por ter sido publicada a obra Bichos, uma das mais famosas, escrita em Leiria.
Para além de inúmeros prémios que lhe foram atribuídos nos anos de 1969,  1976, 1980,  1981, 1982, 1993, recebeu o Prémio Camões (1990) e Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores(1982).
A sua frase “o meu partido é o mapa de Portugal” revela um escritor devoto ao seu torrão natal e ao seu país, tendo-se tornado numa das vozes mais relevantes da literatura portuguesa do sec. XX.


1. Marcamos encontro no Posto de Turismo, ponto central da cidade. Subamos as escadas até ao Marachão, local donde se desfruta o Castelo em todo o seu esplendor e as águas serenas do rio Lis, à beira do qual Miguel Torga costumava passear depois do jantar na companhia do amigo Dr. Olívio.

LEIRIA
“Desde a remota leitura da Corte na Aldeia e de O Crime do Padre Amaro, que ficara preso ao encanto feminino daquela cidadezinha de ruas de curto fôlego e praças de intimismo familiar, acolhedora, a ressumar história e cultura por todas as pedras e ao mesmo tempo impregnada de ruralidade. Em nenhuma outra de Portugal era tão indecisa a fronteira entre o urbano e o campestre. As vinhas e os prados  entravam por ela dentro numa fusão natural. De qualquer miradouro que se olhasse, viam-se telhados e copas, calçadas e feno. As veigas do Liz cercavam-na dum lado, e as do Lena do outro. No meio, campanários, chaminés e outeiros granjeados”.
O Quinto Dia da Criação do Mundo, p. 376





RIO LIS
2.Leiria, 30 de Agosto de 1939 – Longo passeio pelas margens do Lis. Num banco tosco, sentados, três chineses a falar chinês. Apesar de já ter ouvido com indiferença várias e desvairadas línguas por este mundo de Deus, hoje cheguei-me perto deles e fiquei-me a escutá-los maravilhado”.
Diário I p. 106 


3. Atravessemos o Jardim Luís de Camões  até à Fonte Luminosa, - espaço denominado Rossio até finais do sec. XIX, - em direcção à Rua Comandante João Belo, onde se localizava o consultório.

CONSULTÓRIOConsultório
“Abrira a tenda num sítio mau. Apesar de ter corrido por todo o lado, não consegui arranjar coisa melhor dentro do apertado orçamento de que dispunha. Um primeiro andar modesto, num cotovelo sombrio e sem movimento. E ali passava parte das manhãs e das tardes, sonolento, a atender os raros doentes que a notícia da minha chegada num jornal da terra ia trazendo, a ler e a escrever nos longos intervalos das consultas, enquanto os quartos caíam monotonamente da torre da Sé e a senhora Glória fazia renda ou ponteava na sala de espera”.       

O Quinto Dia da Criação do Mundo, p.377  


4. Segue-se a descrição que o poeta faz dos seus vizinhos de consultório, figuras com tanto de pitoresco como de humanidade.

VIZINHOS
E
strela, o barbeiro
“(…) Do Estrela rosado, bochechudo, jovial que todos os dias me cumprimentava feliz da loja, com a alegria dos bem-aventurados de corpo e alma… a tocar violão o dia inteiro na barbearia…”
O Quinto Dia da Criação do Mundo, p.395
Zacarias, o latoeiro
Estou daqui a ver trabalhar o meu vizinho latoeiro. Estou daqui, maravilhado a   vê-lo fazer um púcaro.(…)
Mas olhado de fora, a tocar piano ou a compor um relógio, é um espectáculo assombroso. A perfeição a que podem chegar as suas mãos não tem confronto com nada”.
Diário I, p. 179

Cidália, funcionária da Biblioteca
“(…) E particularmente a Cidália, funcionária da Biblioteca, loira, linda, apetitosa, a chilrear à hora do almoço e do jantar por cima do consultório, em casa da irmã, a descer as escadas num tropel que me punha o sangue a ferver, e à noite, na frisa do cinema, a perfumar a sala e a encurtar os intervalos…”
O Quinto Dia da Criação do Mundo,  p.380 

Por último, Torga apresenta uma das suas mais puras e desinteressadas amizades de Leiria, o Dr. Olívio que, juntamente com o Tomé, bancário, a Dª Gena e o marido, ”formavam as quatro paredes humanas” que o poeta “desde os tempos infantis de Agarez (…) não tornara a sentir…”.
O consultório do Dr. Olívio localizava-se no primeiro andar de um prédio situado no pequeno largo, em frente à estátua do poeta Afonso Lopes Vieira. 


Dr Olívio, o advogado
Solteirão impenitente, com banca de advogado num amplo salão que lhe servia ao mesmo tempo de assento profissional, lar e serralho, ali passava os dias estendido num sofá surrado, a queimar cigarros e a dormitar sobre o jornal, numa quietude paciente de aranha, à espera que um ou outro cliente viesse cair na rede”.
O Quinto Dia da Criação do Mundo, p.385-6

 Miguel Torga em Leiria
 


5. Em frente, e a escassos metros, eis-nos na Praça, sala de visitas de Leiria, cujo anfitrião – o maviosíssimo Francisco Rodrigues Lobo - nos espera.  

  PRAÇA RODRIGUES LOBO E RUAS
Miguel Torga em Leiria - Praça Rodrigues Lobo
“(…) mas não deixou de influir também a graça lírica da terra, embalada pelo marulho do Pinhal do Rei,
................................................ situada
Numa planície fresca e deleitosa
A uma rocha íngreme encostada
Donde o castelo a mostra mais formosa,
habitada pelo génio de Rodrigues Lobo que assim a cantou, e percorrida pelo vulto esquiço de Eça de Queirós que parece apontar ainda a cada esquina”. O Quinto Dia da Criação do Mundo, p. 375-6

Dirijamo-nos agora para as traseiras da Sé onde se localizava na época a Biblioteca.  A caminho, recordemos dois apontamentos referentes às ruas que Torga muitas vezes palmilhou: 

“A paisagem urbana continuava na mesma, amena e acolhedora. As ruas cheias de graça caseira, as praças ensimesmadas de melancolia, o castelo graciosamente equilibrado no seu morro”.
O Sexto Dia da Criação do Mundo, p.481

“(…) À noite (três da manhã) um passeio pelos becos da cidade. A Sé, a Botica do Carlos, a rua da Misericórdia, a casa da Sanjoaneira. Grande Eça!” Diário I, p. 106 


BIBLIOTECA ERUDITA (TRASEIRAS DA SÉ)

6.
Menos do que precisava. Mas sempre que posso…Foi o que me valeu, encontrar aqui uma biblioteca assim. Nunca supus. Boa de verdade! O fundo de clássicos portugueses, então, é notável. Excepcional, mesmo. E de literatura francesa moderna tem também muita coisa…
- Sem falar na obra-prima da bibliotecária… - retorquiu o Tomé.” O Quinto Dia da Criação do Mundo, p. 404-5  
Miguel Torga em Leiria 8 De volta ao Largo da Sé, curiosos, reparemos no belo e emblemático edifício da “Pharmacia Paiva" qual uma inscrição presta homenagem ao ilustre poeta e humanista Acácio de Paiva.

 





 7. A partir de agora é a voz sábia desse notável poeta aqui nascido e falecido no Olival, concelho de Ourém, a guiar-nos na subida até à Cadeia e à Esquadra.  

Miguel Torga em LeiriaCADEIA E ESQUADRA
“A cadeia ficava ao lado da esquadra, encostada à muralha do castelo. Da janela gradeada do cubículo onde fui metido viam-se os telhados de meia cidade, uma nesga da fachada da Sé, as torres de várias igrejas, o cemitério e, mesmo em frente, ao fundo, já liberta na paisagem, airosa, a capela da Senhora da Encarnação, ao alto da escadaria, ufana da sua graça arquitectónica feita de pobreza lavrada.”
O Quinto Dia da Criação do Mundo, p. 416
 


8. Desçamos pelas ruelas da Leiria antiga até chegarmos ao edifício onde se localizava o velho Orfeão e ouçamos um apontamento do poeta referente ao dia em que aqui proferiu um discurso quando, em 1980, foi homenageado pelo Rotary Clube de Leiria, no âmbito dos 50 anos de vida literária.  


Miguel Torga em LeiriaORFEÃO VELHO

Leiria, 20 de Nov. de 1980

A vida pagou-me hoje a prestação mais isenta do saldo que tenho a haver nas nossas velhas contas. E soube encontrar o sítio certo para efectivar a amortização. Esta terra foi a grande encruzilhada do meu destino. Aqui identifiquei e escolhi os caminhos da poesia, da liberdade e do amor, sem dar ouvidos às vozes avisadas da prudência, que pressagiavam o pior. Aqui, portanto, arrisquei tudo por tudo, fazendo das fraquezas forças, das dúvidas certezas, do desespero esperança. Aqui era justo, pois, que, passados muitos anos e muitos trabalhos, eu viesse verificar com alegria que valeu a pena desafiar a sorte, que tive sempre uma mão cheia de armas fraternas e solidárias a torcer por mim, e que as cicatrizes das feridas de ontem são os nossos brasões de hoje. 
D
iário XIII p. 1320


O nosso passeio chegou ao fim. Que dele fique o espírito de abertura e deslumbramento de Torga ao afirmar: “estou sempre pela primeira vez em todos os lugares”.

 Por fim, impõe-se uma breve anotação sobre a paixão que Torga sempre nutriu por Portugal. O seu temperamento curioso impele-o à descoberta dos valores da sua terra e da sua gente, tornando-o um viajante atento e insaciável. Ele próprio nos diz:

Terra onde a História não quis morrer, a Estremadura é no corpo de Portugal a figuração da sua própria alma. Na ondulação do grande Pinhal do Rei, no marulhar das ondas da Nazaré, na ressonância dos passos que percorrem a nave de Alcobaça, no silêncio contido da Batalha, na intimidade do baixo relevo de Atouguia, na melancolia castelã de Porto de Mós, Portugal, p. 70-72 (…).E, além de Fátima, menciona “Marrazes, Milagres, Cortes, Monte Real, Praia da Vieira, Marinha Grande, S. Pedro de Muel e Ourém”, V Dia da Criação do Mundo, p. 388; Pombal foi também palco de alguns curiosos episódios nas suas deslocações entre Leiria e Coimbra.
Assim, acompanhamos Torga numa apaixonada deambulação em todas as direcções, tornando-se Leiria o centro difusor donde partiu à procura do ”melhor da força criadora nacional”.

Copyright
Maria Lucília Vasconcelos
(Elos Clube da Região de Leiria)  

Fotografia
Região de Leiria/Fátima
Capa:
Espólio Casa Miguel Torga

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